domingo, 13 de dezembro de 2015

Empatia

Apontou para ela e disse.
- Ingratidão.
Seu olhar triste se voltou para ele.
- Por favor, só me compreenda.
Ele ouviu sua voz e uma onda de raiva estremeceu por seu corpo.
Ela começou a chorar.
Ele respirou um pouco aliviado. O importante era saber que ela sofria também.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Morre em mim

Eu sou uma criança.
E me mandaram pintar dentros dos quadrados.
E me disseram que as árvores deveriam ser verdes e o céu azul.
E que eu não posso falar, andar, cantar ou me expressar da maneira como eu quiser.
Sobre as minhas brincadeiras de faz-de-conta, me foi observado que não eram reais. E que eu não era rei, nem princesa, nem cavaleiro, nem feiticeira.
E o coração de um artista morreu lentamente dentro de mim.
Eu sou um jovem.
Minha rebeldia não passa de imaturidade. Eu quero mudar as coisas, mas me explicaram que elas não podem ser mudadas e isso é algo que eu só vou conseguir entender quando eu for mais velho.
Me mandaram tirar boas notas e ser ótimo em tudo. Me disseram pra prosseguir com meus estudos.
E quando eu quis dançar, me mandaram fazer cálculos. E quando eu quis atuar, me mandaram gostar de esportes. E quando eu quis cantar, tirei minhar carteira de motorista, e quando eu quis tocar, passei na faculdade.
Já não desenho ou pinto mais.
E o coração de um artista morreu lentamente dentro de mim.
Eu sou todos os homens e todas as mulheres.
Eu acordo cedo e vou trabalhar todos os dias. Eu já não sei dançar.
Minhas planilhas financeiras me fazem ser promovido no trabalho.
Eu não quero atuar. Eu entendi que a vida real é dura e não deixa espaço pra atuação.
Eu não quero cantar ou tocar. Eu prefiro pagar pra que façam isso por mim. É mais simples.
Eu deixo o rádio ligado em qualquer estação.
Eu tenho uma casa, eu tenho um carro. Eu não precisei desenhar nada disso.
Eu coleciono sucessos. Eu sou um empreendedor. Eu habilmente escondo meus fracassos.
E todos os dias de manhã eu chego no trabalho aonde eu não me importo e um artista grita desesperado dentro de mim. Sufoca agonizante dentro de mim. E morre lentamente dentro de mim.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Portas

Tudo começou com uma porta.
A porta que eu não abro é o caminho que eu não sigo.
É o caminho que eu não sei aonde vai dar nem nunca vou saber.
É o eu que eu nunca vou ser.
As portas que eu não abro gritam na minha cabeça: "E se..."!,"E se..."!,"E se..."!
Morro de não-arrependimento.
Renasço outro, disposto a abrir uma porta. Abro. Está vazia.
O que tinha lá já foi embora.
E se... E se...
De novo.
Se uma não deu certo, nenhuma das outras vai dar.
Não abro mais porta alguma. Os anos passam.
Certo dia, no sofá, morro.
De indiferença.
O caixão parece com uma porta. Entro. Não gosto. Agora não há mais tempo.
Tanto faz.

terça-feira, 9 de julho de 2013

Teu poema

Procurei nos grandes nomes
um poema que estivesse à tua altura
para dedicar-lhe esta noite.
Não há.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Destino

A música preferida dela era Vinte e Nove. Ele tinha toda a discografia da Legião Urbana, e um dos álbuns autografado, que lhe tinha sido dado por seu tio quando ele ainda tinha doze anos.
Eles foram feitos um para o outro.
Ela gostava de jazz, blues e tocava piano. Aprendeu depois dos dezoito, mesmo todo mundo dizendo que não se aprende a tocar piano depois da infância. Saía pra caminhar e levava os cachorros, três deles: joca, dado e dara. Mas o joca às vezes ficava em casa, porque sempre arrumava briga com algum outro bichinho que estivesse na rua. Ele tinha um gato, que tinha sido de sua irmã, mas ela mudou pra um apartamento e o bichano ficou pra ele. O nome original era fofo, mas ele não gostou do nome e passou a chamar o gato de bichano. Ele cantava mal, mas tocava bem o violão, e adorava juntar uma galera em volta de uma fogueira pra tocar e cantar, embora nunca tivesse feito isso.
Eles moravam no mesmo bairro, e uma vez, quando ela passou na frente da casa dele a pé, ficou curiosa pra saber quem estava escutando Norah Jones e deixava uma pequena estátua de Buda no Jardim. Outra vez, ele ia entrar no ônibus, e se tivesse entrado teria encontrado o único lugar vago bem do lado dela, que tinha acabado de ser aprovada no mestrado. Naquele dia ele vestia uma camiseta da Mafalda, e ela tinha dois volumes de Mafalda no criado mudo do lado da cama. Sempre pegava para ler quando algum pensamento incomodava demais antes de dormir. Mas ele se lembrou que tinha esquecido de deixar comida para o bichano, e pegou um ônibus mais tarde.
Estava escrito nas estrelas que um faria muito bem para o outro, de tal ponto que suas vidas fariam mais sentido e seus olhares carregados de ternura. Um desses casos que a gente diz "era realmente pra ser assim!"
Ela adorava alguns seriados estrangeiros, e ele achava alguns seriados meio bobos. Afinal, eles não poderiam concordar em tudo. Mas os dois adoravam assistir "Quero ser grande" pra passar o tempo e choravam ao assistir "O leitor", porque era um filme forte e bonito. Os dois começaram coleções de vinis, e se algum dia juntassem seus discos teriam muita coisa boa, o suficiente pra ouvir por dias seguidos nas férias em algum ponto do futuro, tomando vinho e fazendo experiências gastronômicas. Ela adorava cozinhar. Ele não gostava muito, mas fazia um risoto invejável. A comida favorita dela era risoto.
Ela se sentia triste porque seus dois últimos relacionamentos foram péssimos, sem que tivessem dado a ela um respeito real. Ele se sentia sozinho, e ficava imaginando se demoraria a encontrar alguém que valesse a pena.
Um dia, quando o carro dela parou de funcionar do outro lado da cidade, ele estava no mesmo momento saindo da casa de sua mãe, bem na frente. Ele estava indo oferecer ajuda, mas o carro pegou e ela foi embora.
Eles nunca se encontraram.

sábado, 11 de maio de 2013

Poesia da Maresia

Todo dia é dia,
dia de que?
dia de não sei, e do balanço
do balanço da onda do mundo,
do balanço da indecisão.
Mas que confusão fui arrumar
com esse tal chamado mar!
Sua grandeza de beleza
sua salgadeza e profundeza
me deixou na maresia,
balançado de não saber,
sem rumo, nem direção,
a ver navios.


domingo, 30 de dezembro de 2012

Nomes

Em nome de quem?
Aqui não tem fulano.
Nem sicrano.
Nem beltrano.
Aqui só tem gente que não se conhece.