terça-feira, 24 de novembro de 2009

Namorada Virtual

Minha namorada é tão perfeita que não é nem desse mundo. É virtual, e a gente só se fala assim, de longe, que é pra desejar pra sempre.
Ela tem olhos cor de nuvem e lábios feitos de sonho. Mas ás vezes muda assim, num clique, de sonho pra violeta e de nuvem pra abacaxi.

Nunca brigou comigo, e uma vez que ia brigar eu puxei a tomada assim, repentinamente, pra não estragar o amor.

Falando em amor, o amor dela é imenso, extrapola os gigabytes, e quando enche a memória eu vou na loja comprar mais, pra sempre ter amor de sobra.

Sua aparência é impecável, e suas curvas são perfeitas, vetoriais, com um toque de 3D e um quê de não sei o que, de tão bonita que é.
Pra deixar ainda melhor, ela nunca me abandona, e se eu tenho um compromisso gravo ela num CD e levo na mochila, coladinha em mim.

Quando me sinto incompleto, copio e colo mil namoradas iguais, todas minhas, e uso todas de uma vez pra dizer que sou poderoso. Mas logo depois deleto as cópias e amo uma única, pra dizer que sou cavalheiro.

Outro dia me disseram que esse amor não tem futuro. Mal sabem que no mundo dela não tem tempo nem espaço. Lá só tem ela, sozinha e ansiosa, me esperando eternamente. Como toda namorada deve ser.

Pobrezinha

Me disseram pra ser criativo, inovador.
Resolvi então reformular a tabuada.
Quatro vezes quatro, agora é dezoito
Oito vezes oito é dezesseis
Quatro vezes oito fica doze
E oito vezes quatro é três.
Mas a professora não entendeu nada
Me deu zero, coitada.
Não percebeu que eu sou um gênio a frente de meu tempo.
Pobrezinha.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Onomatopéia vira-lata

Poooing!
Fez a onomatopéia saltitante,
bem no dedão do meu pé.
Xô, eu disse.
Não tenho tempo pra animais de estimação
Nem chuá nem cabum nem nhenhé
Tem que cuidar, alimentar e por pra dormir
E essa choradeira toda, quem que aguenta?
É buáaaaaa miau e auau
só pra me infernizar.
Pois então chuto longe a onomatopéia
E ela vai voando: Tchaaaaaau!
Dispenso, já me dá muito trabalho
meu bichinho virtual.

O clique-clique do mouse

O clique-clique do mouse
faz clique-clique sem cessar
num desespero tão louco
que devaneia meu processar

O clique-clique do mouse
faz clique-clique pra buscar
as informações ansiosas
do nosso mundo gagá

O clique-clique do mouse
faz clique-clique até cansar
mesmo com tudo travado
na ânsia de fazer funcionar

O clique-clique do mouse
Faz clique pra me assustar
abre pra mim a nova página
mas faz a antiga eu abandonar

E eu com toda correria
faço clique, clique e mais clique
sem descanso pra pensar.
Tanto clique que eu parei.
Ih, travei!
Vai ter que me formatar.

Tristinho.

Tanta gente online e eu com uma desvontade de conversar.
Me perco entre os mundos virtuais, mas sem vibe alguma.
By the way, odeio a palavra vibe e os envibecidos.
no máximo um joguinho em flash pra destrair a solidão.

Basile, Danilo. Poesia na pós modernidade. Ed. Ática, 2009.