quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Retrato

Um velho senhor cansado saiu de casa à procura de um lugar para morrer.
Decidiu-se por um banco de uma praça arborizada no centro da cidade.
O banco era na frente de uma fonte que jorrava água para cima e para os lados, mas um dos canos não funcionava bem, e eventualmente molhava algum transeunte que tomava um susto, e saía irritado.
No centro da fonte, três estátuas de gaviões imponentes foram escolhidos para serem testemunhas de sua morte.
Uma mulher de vinte e cinco anos, loira e alta, passava com sua filha, que estava em um carrinho de bebê. A mãe estava no celular e não viu que atrás dela um rapaz de gorro esperava para pegar sua bolsa e sair correndo.
Duas crianças sem pai nem mãe brincavam na lama que se formou em uma porção de terra que era molhada pelo cano entortado da fonte. Elas tinham lama por seus corpos inteiros, dos pés aos cabelos, e pararam para ver um helicóptero da polícia que sobrevoava o céu nublado.
Um jovem andava com uma mochila cheia de bottons nas costas e uma camiseta com a estampa de Che Guevara, olhava pra baixo e escutava punk em seu Ipod original da Apple.
Em um banco, um casal de amantes decidia para onde iriam viajar no próximo final de semana.
E então um senhor aproximou-se do velho com panfletos religiosos, oferecendo a salvação.
Era o momento perfeito.
-Senhor, o senhor ao menos está me ouvindo? Dormiu. Velho mal-educado.
E morreu ali, feliz. Só notaram dois dias depois, quando o cheiro começou a incomodar quem passava por ali.

domingo, 1 de agosto de 2010

Cordel

Nas terras aqui do sudeste
Não tão lindas quanto o norte
Eis que chega um guri
resolve tentar a sorte
e escrever um cordel
tão real quanto a própria morte

De manhã era um domingo
Nessa vida passageira
desligou-se a energia
a moçada ficou cabrera
sumiu a eletricidade
foi da vizinhança inteira

O povo inteiro a zunir
foi ficando injuriado
como vou entrar no orkut
pra olhar os meus recados
e entrar no msn
pra falar com o namorado
como vou ver meu e-mail
e as ofertas no mercado,
se o meu computador
teima em ficar desligado

No começo era só isso
que o povo reclamava
mas conforme o tempo passa
as coisa fica mais braba
e então a televisão
a ausência nóis notava

Não tinha mais as novela
pras moça de casa assisti
e nem os jogo de bola
pros homi se diverti
e as criança sem desenho
desaprenderam a sorri

sem tevê e computador
o que se podia fazê?
tentava até ligar o rádio
pra alguma notícia sabê
sobre a volta da energia
que insistia em carecê

No meio do terror geral
as coisa se complicava
ninguém tinha o que fazê
se a energia num voltava
sem trabalho, sem escola
todo mundo fica em casa
nem polícia, nem hospital
nada mais funcionava
e o silêncio virou rei
onde só ele reinava

Foi quando um guri qualquer
numa idéia aventurava
resolveu que aquele tédio
teria sua derrocada
e empeçou sua tramóia
com as pessoas conversava
as crianças levou pra rua
e com todas ele brincava
ele olhava nos óio
das pessoa amargurada
que passaram a perceber
a vida que lhes cercava

e foi nesse momento estranho
que o mais estranho aconteceu
foi as luzes da cidade
que de repende apareceu
foi a energia que voltou
mas que alegria, meu deus!
e do guri e sua idéia
todo mundo esqueceu

voltaram pras suas casas
trabalho, escola e rotina
ligaram computador,
tevê e jornal da matina
pra se isolar na vida,
sonho de qualquer menina,
que quer um dia ser gente grande
pra trombar com alguém na esquina
e não ter que dar bom dia,
só seguir com sua vida.