quarta-feira, 6 de outubro de 2010

A espetacular história de amor entre ribossomo e lisossomo

Ribossomo e Lisossomo se conheceram num domingo apagado e deram risada de seus nomes estranhos.
Saíram três vezes sem gostar um do outro, e deram as mãos sem que houvesse carinho.
Ribossomo e Lisossomo foram ao cinema numa tarde de outubro, e descobriram que amor é só qualquer coisa que inventam nos filmes.
Foram felizes por dez anos tediosos em que construíram suas narrativas pessoais e projetos de vida.
Ribossomo e Lisossomo tiveram gripe, enxaqueca, depressão, consumismo, miséria, anorexia, síndrome do pânico e todos os outros males da vida moderna.
Mas após comprar um computador e um celular para cada, todos os seus problemas acabaram.
Ribossomo e Lisossomo desistiram de não desistir nunca, e a vida ficou mais leve de aceitar.
Tiveram ciúmes. Maltrataram-se.
Ribossomo e Lisossomo foram ao cartório perguntar se podiam trocar seus nomes para João e Carlos, mas o funcionário não gostava de "caras estranhos que gostavam de caras", e o processo nunca saiu da gaveta.
Certo dia chegaram em casa e o cachorro havia morrido. E a partir daí não se houviam mais latidos, nem palavras.
Ribossomo já era velho quando Lisossomo morreu, e não chorou, porque esse é um fato que ocorre em tempos futuros, quando não existe mais choro, só a tristeza sem válvula de escape.
Chorar é para os fracos.
Lisossomo compreendeu que a vida é sem sal, preta e branca, e nunca mais quis voltar pra cá.
E não existiu, em nenhum canto ou momento da história de nosso mundo, amor maior do que o de Lisossomo e Ribossomo, efêmero quando durou, eterno quanto teve fim.