terça-feira, 25 de junho de 2013

Destino

A música preferida dela era Vinte e Nove. Ele tinha toda a discografia da Legião Urbana, e um dos álbuns autografado, que lhe tinha sido dado por seu tio quando ele ainda tinha doze anos.
Eles foram feitos um para o outro.
Ela gostava de jazz, blues e tocava piano. Aprendeu depois dos dezoito, mesmo todo mundo dizendo que não se aprende a tocar piano depois da infância. Saía pra caminhar e levava os cachorros, três deles: joca, dado e dara. Mas o joca às vezes ficava em casa, porque sempre arrumava briga com algum outro bichinho que estivesse na rua. Ele tinha um gato, que tinha sido de sua irmã, mas ela mudou pra um apartamento e o bichano ficou pra ele. O nome original era fofo, mas ele não gostou do nome e passou a chamar o gato de bichano. Ele cantava mal, mas tocava bem o violão, e adorava juntar uma galera em volta de uma fogueira pra tocar e cantar, embora nunca tivesse feito isso.
Eles moravam no mesmo bairro, e uma vez, quando ela passou na frente da casa dele a pé, ficou curiosa pra saber quem estava escutando Norah Jones e deixava uma pequena estátua de Buda no Jardim. Outra vez, ele ia entrar no ônibus, e se tivesse entrado teria encontrado o único lugar vago bem do lado dela, que tinha acabado de ser aprovada no mestrado. Naquele dia ele vestia uma camiseta da Mafalda, e ela tinha dois volumes de Mafalda no criado mudo do lado da cama. Sempre pegava para ler quando algum pensamento incomodava demais antes de dormir. Mas ele se lembrou que tinha esquecido de deixar comida para o bichano, e pegou um ônibus mais tarde.
Estava escrito nas estrelas que um faria muito bem para o outro, de tal ponto que suas vidas fariam mais sentido e seus olhares carregados de ternura. Um desses casos que a gente diz "era realmente pra ser assim!"
Ela adorava alguns seriados estrangeiros, e ele achava alguns seriados meio bobos. Afinal, eles não poderiam concordar em tudo. Mas os dois adoravam assistir "Quero ser grande" pra passar o tempo e choravam ao assistir "O leitor", porque era um filme forte e bonito. Os dois começaram coleções de vinis, e se algum dia juntassem seus discos teriam muita coisa boa, o suficiente pra ouvir por dias seguidos nas férias em algum ponto do futuro, tomando vinho e fazendo experiências gastronômicas. Ela adorava cozinhar. Ele não gostava muito, mas fazia um risoto invejável. A comida favorita dela era risoto.
Ela se sentia triste porque seus dois últimos relacionamentos foram péssimos, sem que tivessem dado a ela um respeito real. Ele se sentia sozinho, e ficava imaginando se demoraria a encontrar alguém que valesse a pena.
Um dia, quando o carro dela parou de funcionar do outro lado da cidade, ele estava no mesmo momento saindo da casa de sua mãe, bem na frente. Ele estava indo oferecer ajuda, mas o carro pegou e ela foi embora.
Eles nunca se encontraram.