terça-feira, 28 de outubro de 2014

Morre em mim

Eu sou uma criança.
E me mandaram pintar dentros dos quadrados.
E me disseram que as árvores deveriam ser verdes e o céu azul.
E que eu não posso falar, andar, cantar ou me expressar da maneira como eu quiser.
Sobre as minhas brincadeiras de faz-de-conta, me foi observado que não eram reais. E que eu não era rei, nem princesa, nem cavaleiro, nem feiticeira.
E o coração de um artista morreu lentamente dentro de mim.
Eu sou um jovem.
Minha rebeldia não passa de imaturidade. Eu quero mudar as coisas, mas me explicaram que elas não podem ser mudadas e isso é algo que eu só vou conseguir entender quando eu for mais velho.
Me mandaram tirar boas notas e ser ótimo em tudo. Me disseram pra prosseguir com meus estudos.
E quando eu quis dançar, me mandaram fazer cálculos. E quando eu quis atuar, me mandaram gostar de esportes. E quando eu quis cantar, tirei minhar carteira de motorista, e quando eu quis tocar, passei na faculdade.
Já não desenho ou pinto mais.
E o coração de um artista morreu lentamente dentro de mim.
Eu sou todos os homens e todas as mulheres.
Eu acordo cedo e vou trabalhar todos os dias. Eu já não sei dançar.
Minhas planilhas financeiras me fazem ser promovido no trabalho.
Eu não quero atuar. Eu entendi que a vida real é dura e não deixa espaço pra atuação.
Eu não quero cantar ou tocar. Eu prefiro pagar pra que façam isso por mim. É mais simples.
Eu deixo o rádio ligado em qualquer estação.
Eu tenho uma casa, eu tenho um carro. Eu não precisei desenhar nada disso.
Eu coleciono sucessos. Eu sou um empreendedor. Eu habilmente escondo meus fracassos.
E todos os dias de manhã eu chego no trabalho aonde eu não me importo e um artista grita desesperado dentro de mim. Sufoca agonizante dentro de mim. E morre lentamente dentro de mim.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Portas

Tudo começou com uma porta.
A porta que eu não abro é o caminho que eu não sigo.
É o caminho que eu não sei aonde vai dar nem nunca vou saber.
É o eu que eu nunca vou ser.
As portas que eu não abro gritam na minha cabeça: "E se..."!,"E se..."!,"E se..."!
Morro de não-arrependimento.
Renasço outro, disposto a abrir uma porta. Abro. Está vazia.
O que tinha lá já foi embora.
E se... E se...
De novo.
Se uma não deu certo, nenhuma das outras vai dar.
Não abro mais porta alguma. Os anos passam.
Certo dia, no sofá, morro.
De indiferença.
O caixão parece com uma porta. Entro. Não gosto. Agora não há mais tempo.
Tanto faz.